A Grande Tribulação e o Arrebatamento

O capítulo 12 de Daniel é um dos momentos culminantes da profecia, onde o livro de Daniel se projeta para o futuro da humanidade, trazendo uma visão de eventos de magnitude eterna. Neste capítulo, o profeta Daniel recebe revelações que transcendem sua época, apontando para o fim dos tempos e para a vitória final de Deus sobre o mal.

A Grande Tribulação mencionada aqui é um período de intensa angústia e sofrimento, descrito como um tempo sem precedentes na história da humanidade. Essa tribulação está associada a um conflito espiritual e físico que envolverá toda a Terra, culminando na tentativa de Satanás de destruir o povo de Deus e impedir a manifestação do Reino eterno. Esse período será marcado pela ascensão do Anticristo, que exercerá um poder tirânico sobre as nações, buscando corromper a fé dos eleitos e forçar os habitantes da Terra à adoração de um falso sistema. Jesus também faz referência a este período em Mateus 24:21, descrevendo-o como “um tempo de grande angústia, como nunca houve desde o princípio do mundo até agora, nem jamais haverá”. A profecia se alinha com a visão de um tempo de prova final, no qual os fiéis serão perseguidos por sua lealdade a Deus, mas também protegidos por Sua intervenção.

Como temos destacado ao longo deste livro, há diferentes abordagens para a interpretação da Grande Tribulação. Uma das mais conhecidas é a perspectiva de John Walvoord, importante teólogo da escola futurista.

Segundo Walvoord e outros teólogos futuristas, a Grande Tribulação será um período literal de sete anos que ocorrerá nos tempos finais da história humana, imediatamente após o arrebatamento da Igreja. Para essa linha de interpretação, baseada principalmente em uma leitura dispensacionalista das profecias bíblicas, esse período será marcado por juízos divinos, perseguições intensas e o surgimento do Anticristo, que fará um pacto com Israel e, posteriormente, o quebrará. A Igreja, segundo essa perspectiva, já terá sido retirada da Terra por meio do arrebatamento pré-tribulacional, e a Grande Tribulação se concentrará especialmente na nação de Israel e nos povos que rejeitaram o evangelho. Ao final dos sete anos, ocorrerá a Segunda Vinda de Cristo em glória, dando início ao milênio literal de paz e justiça na Terra.

Essa visão difere da abordagem historicista adotada nesta obra. Em nossa compreensão, não identificamos uma ligação direta entre a nação de Israel e a Grande Tribulação, conforme propõe o futurismo. Em vez disso, entendemos que esse tempo de angústia será vivenciado pelo povo fiel de Deus em todo o mundo — não por uma nação étnica específica, mas por aqueles que, em qualquer lugar, permanecerem firmes em sua fidelidade ao Senhor, ou seja, aqueles que se mantêm obedientes aos Mandamentos do Senhor.

Essa compreensão encontra respaldo em diversos autores e teólogos ao longo da história da Igreja. Isaac Newton, em seus estudos proféticos, entendia que as profecias se cumprem progressivamente ao longo da história, rejeitando uma aplicação estritamente futurista. George Eldon Ladd, teólogo do século XX, também afirmava que a Igreja não será retirada da Terra, mas sustentada por Deus em meio à tribulação. Essas vozes, somadas à compreensão de Ellen G. White e John Wesley, nos oferecem uma sólida base teológica para crer que a Grande Tribulação será enfrentada pelos fiéis de todas as nações — não por uma única nação étnica, mas por todos os que permanecem fiéis ao Senhor.

A conclusão, na visão historicista, é que a Grande Tribulação acontecerá em um momento em que todo o povo de Deus (cristãos e judeus) estará na Terra e lutará contra o poder do Anticristo e contra a apostasia que se espalhará pelo mundo. Há vários textos bíblicos que corroboram essa interpretação. Vejamos alguns:

2 Tessalonicenses 2:1-4: "Ora, irmãos, quanto à vinda de nosso Senhor Jesus Cristo e à nossa reunião com ele \[...] ninguém de modo nenhum vos engane; porque isso não acontecerá sem que primeiro venha a apostasia e seja revelado o homem do pecado, o filho da perdição."

Paulo diz que a vinda de Cristo e o ajuntamento da Igreja (arrebatamento) não acontecerão antes que surja o Anticristo (homem do pecado) e que venha a apostasia. Ou seja, a Igreja verá esse cenário acontecer — ela estará na Terra quando tudo isso se desenvolver.

Apocalipse 7:13-14: "Estes que estão vestidos de vestes brancas, quem são e de onde vieram?... Estes são os que vieram da grande tribulação, lavaram suas vestes e as alvejaram no sangue do Cordeiro".

Esses fiéis vieram da grande tribulação, ou seja, passaram por ela e foram purificados por meio da fidelidade e da graça de Cristo. Isso indica que o povo de Deus não foi retirado antes, mas sim preservado durante esse tempo difícil.

Apocalipse 13:7-10: "Foi-lhe permitido fazer guerra aos santos e vencê-los... Se alguém leva em cativeiro, em cativeiro irá; se alguém matar à espada, necessário é que à espada seja morto. Aqui está a perseverança e a fé dos santos".

Os santos estão presentes durante a atuação da besta — símbolo de um poder perseguidor no tempo do fim — e são perseguidos, segundo o relato bíblico. Isso contradiz a ideia de que os fiéis já teriam sido arrebatados antes desses eventos. Outro ponto central de divergência entre as abordagens historicista e futurista está na cronologia do arrebatamento. Na perspectiva historicista, o arrebatamento e a Segunda Vinda de Jesus são um único evento, visível e glorioso, que ocorre após a Grande Tribulação. Já o futurismo os compreende como dois eventos distintos, separados por esse período de sete anos.

Essa diferença está profundamente ligada à forma como cada linha entende a escatologia cristã: no futurismo, a Igreja é retirada antes da tribulação; no historicismo, ela é preservada por Deus durante esse tempo, testemunhando e perseverando até o fim. Para facilitar o entendimento, vamos observar a timeline a seguir e comparar as duas interpretações.





O Arrebatamento: Visões Contrapostas


Ao longo da história da escatologia cristã, duas principais interpretações acerca do arrebatamento da Igreja têm se destacado: o arrebatamento secreto, ensinado pela linha futurista/dispensacionalista, e o arrebatamento glorioso, defendido pela linha historicista e por boa parte da tradição protestante clássica. Apesar de parecerem semelhantes, essas teorias apresentam diferenças significativas, especialmente no que diz respeito à restauração de Israel.

O arrebatamento secreto

A visão futurista, amplamente divulgada no século XX por teólogos como John Nelson Darby e popularizada por obras de ficção cristã, sustenta que o arrebatamento ocorrerá de forma secreta, invisível e súbita, antes da Grande Tribulação. Nessa perspectiva, os cristãos fiéis serão retirados da Terra sem aviso prévio — simplesmente desaparecerão — e os que permanecerem, inclusive a nação de Israel, enfrentarão um período de sete anos de tribulação sob o domínio do Anticristo. Após esse período, Cristo voltaria visivelmente para estabelecer Seu reino milenar. Essa interpretação baseia-se numa leitura sequencial dos eventos proféticos, como os descritos em 1 Tessalonicenses 4:16-17 e Mateus 24, dentro de um sistema que distingue os planos de Deus para a Igreja e para Israel.

O arrebatamento glorioso e visível

Por outro lado, a visão historicista — à qual esta obra está alinhada — compreende que o arrebatamento não será secreto, mas parte integrante da gloriosa volta de Jesus Cristo ao final dos tempos. Segundo essa interpretação, não há dois retornos de Cristo, nem uma retirada prévia da Igreja.

Com base em textos como 1 Tessalonicenses 4:16-17, Mateus 24:30-31 e Apocalipse 1:7, essa perspectiva ensina que o Senhor voltará visivelmente, com poder e grande glória, acompanhado de anjos e som de trombeta. Todos os olhos O verão. Nesse momento, os mortos em Cristo ressuscitarão, e os vivos serão transformados e arrebatados para encontrar o Senhor nos ares. Não se trata, portanto, de uma retirada anterior à tribulação, mas da reunião final dos salvos no momento da Segunda Vinda — evento que será também o juízo final e o encerramento da história humana como a conhecemos. Nesta interpretação, não há distinção entre judeus e cristãos: todos os fiéis — os santos do Altíssimo, aqueles que guardam os Mandamentos — serão arrebatados.

A principal diferença entre as duas visões é que, na futurista, o arrebatamento ocorre em segredo e antes da tribulação; enquanto na historicista, ele acontece de maneira pública, gloriosa e no mesmo momento da volta de Jesus. Além disso, enquanto o futurismo centra a Grande Tribulação em Israel e num futuro pacto político, o historicismo a entende como a prova final dos fiéis ao redor do mundo — não focada em uma nação étnica, mas no povo espiritual de Deus, presente em todas as nações.


Continua...

Este fragmento é parte da obra "Sonhos e Realidades - A História nos Olhos de Daniel" de Rogério Filho. Este texto é só uma amostra do conteúdo completo. Para adquirir o e-book, clique aqui

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