1. Introdução
Este estudo tem como base o Sermão do Monte (Mateus, capítulos 5 a 7), fundamentado nas mensagens de John Wesley em seu livro O Sermão do Monte (Penkall). Os princípios ensinados por Jesus nesses capítulos funcionam como um verdadeiro compêndio de toda a Bíblia. Cada mensagem de Jesus aborda aspectos essenciais da vida de um verdadeiro cristão, e cada palavra de cada verso deve ser cuidadosamente analisada, aprendida e praticada. É isso que faremos neste estudo.
2. Bem aventurados os pobres de espírito (Mt 5:3)
John Wesley inicia sua exposição com o versículo 3. Segundo sua explicação, os pobres de espírito são aqueles que possuem uma essência de humildade genuína. Antes, porém, de entrarmos diretamente nas palavras de Wesley, é importante refletir brevemente sobre o significado de humildade.
2.1 - Humildade
Este conceito é frequentemente confundido. Muitas vezes, considera-se uma pessoa humilde apenas por sua condição econômica simples, por seu comportamento introvertido ou por sua timidez. No entanto, humildade não se limita a isso. Vamos definir o termo de forma mais precisa:
““A humildade é uma qualidade ou característica que envolve a modéstia, a ausência de orgulho ou arrogância e uma disposição genuína para reconhecer as próprias limitações, erros ou fraquezas. Uma pessoa humilde não se coloca acima dos outros nem se gaba de suas realizações; ao contrário, reconhece a igualdade entre todos e está aberta a aprender, crescer e ajudar o próximo sem menosprezá-lo. A humildade está frequentemente associada à empatia, ao respeito e à humildade intelectual, permitindo um relacionamento saudável com os outros e consigo mesma.””.
(fonte: chatGPT)
A partir dessa definição, é importante compreender que:
- Uma pessoa pobre pode ser arrogante ao ponto de se achar melhor que os outros, usando a vitimização para afirmar que “merece” mais devido à sua situação.
- Uma pessoa introvertida pode ser reservada e distante, mas, dentro de si, alimentar a ideia de ser superior aos demais.
A humildade como prática
Ao refletirmos sobre o que é, de fato, uma pessoa humilde, percebemos que a humildade não é apenas um conceito, mas uma prática. Voltemos, então, à definição apresentada anteriormente:
a). “uma disposição genuína para reconhecer as próprias limitações”
O ser humano é pecador e, por isso, carrega falhas que jamais cessarão. Nesse contexto, podemos entender que um homem humilde é aquele que reconhece sua completa dependência do perdão de Deus em todas as coisas, pois sabe que sua maior limitação é a incapacidade de alcançar a perfeição.
Mesmo quem se considera justo, inevitavelmente enfrentará momentos de pecado — seja por pensamentos impuros, maledicência, inveja, entre outros. Vemos esse reconhecimento em Davi, no Salmo 51, quando ele clama desesperadamente pelo perdão divino e suplica para que o Espírito de Deus não se afaste dele. Davi, apesar de rei, compreendia que, sem Deus, nada era.
b). “não se coloca acima dos outros”.
As pessoas arrogantes raramente sabem ouvir. Desejam que suas palavras sejam as mais valorizadas, e tentam refutar qualquer comentário ou ensino alheio, pois acreditam ser as mais sábias. Querem “falar mais alto” e impor suas opiniões, descartando toda possibilidade de estarem erradas.
Em contrapartida, a pessoa verdadeiramente humilde aprecia ouvir o que os outros têm a dizer, mesmo quando há divergências de pensamento. Ela reconhece que pode aprender com todos, independentemente da posição ou conhecimento de cada um.
c). “A humildade frequentemente está ligada à empatia, respeito e humildade intelectual”
A pessoa realmente humilde demonstra empatia — é agradável e acessível aos outros.
Independentemente das palavras que alguém arrogante possa usar, jamais será empático, pois, ao se deparar com qualquer discordância, reagirá com rejeição ou desprezo.
Já o respeito e a humildade intelectual manifestam-se quando alguém, mesmo percebendo que outros possuem menos conhecimento, valoriza cada pessoa sem medir “Q.I.” ou comparar capacidades. O humilde entende que pode aprender algo novo de diferentes tipos de pessoas e reconhece que não domina todas as áreas do saber.
d). “permitindo um relacionamento saudável com os outros e consigo mesmo”
A humildade resulta em relacionamentos saudáveis com as pessoas ao redor e também em um bom relacionamento interior. A pessoa arrogante, por outro lado, vive em constante conflito consigo mesma — reagindo a tudo e a todos que, de alguma forma, pareçam ameaçar sua reputação.
2.2 - Quem são os pobres de espírito?
São aqueles que, ao fazerem uma introspecção, conseguem enxergar sua própria pequenez e incapacidade de autoexpiação. Como diz John Wesley, por menores que sejam os pecados, o pobre de espírito reconhece que não pode pagar por nenhum deles — por mais insignificantes que pareçam — e entende que não há obras capazes de “encobri-los”.
Também sabe que é tão pecador quanto qualquer outra pessoa e sente verdadeira tristeza quando peca. Mesmo que o pecado não seja percebido de imediato, ao tomar consciência de seu erro, o pobre de espírito se arrepende profundamente e busca não voltar a cometê-lo. O pecado o incomoda — não apenas por reconhecer sua falha, mas porque sabe que esse afastamento o separa da comunhão com Deus.
Imagem: Igreja Universal. Acesso: https://www.igrejauniversal.pt/o-religioso-hipocrita-e-o-pecador-sincero/Um exemplo prático disso encontramos no capítulo 18 do Evangelho de Lucas, na parábola do fariseu e do publicano (Lucas 18:9-17). Nessa parábola, Jesus afirma que o publicano saiu justificado, enquanto o fariseu não. Qual foi a diferença entre eles?
O publicano reconhecia sua condição de pecador. Apesar de ser afrontado pelo fariseu, ele não tentou se justificar; apenas orou com sinceridade: “Tem misericórdia de mim, pecador.”
2.3 “...porque, deles é o Reino dos céus”
O versículo 3 termina explicando: “porque deles é o Reino dos céus.” Somente por meio da humildade é possível alcançar um arrependimento sincero e agradável a Deus. Não importa quem a pessoa seja ou o que faça — se ela não for humilde, jamais alcançará a Deus.
Jesus, porém, ensina o oposto: os humildes já são dignos da herança celestial. Mas como podem ser dignos, se são pecadores? Porque Deus ama os humildes e os acolhe. Não que sejam dignos em si mesmos, mas Jesus os torna dignos pelo Seu próprio sacrifício.
O conceito de “pobres de espírito” refere-se àqueles cujo coração é verdadeiramente humilde, na mais profunda essência da palavra — pessoas cujo interior está voltado para buscar e alcançar a Deus.
3. Bem aventurados os que choram, pois eles serão consolados (v. 4)
“A expressão “os que choram” pode, à primeira vista, causar certa confusão. Choram por quê? Por quem?
Para compreender essa bem-aventurança, vejamos como John Wesley interpretava essa passagem.
Em resumo, Wesley explica que “os que choram” não são aqueles que lamentam por uma perda, frustração, indignação, ofensa ou qualquer outro motivo material. Segundo ele, existem diferentes razões espirituais que levam alguém a chorar diante de Deus.
a). Os que choram por Deus
São aqueles que, tendo experimentado o perdão divino, voltaram a cair e agora, com o coração quebrantado, anseiam novamente pelo perdão do Senhor, conscientes de que recaíram no pecado (Sermão do Monte, p. 22, §3).
Mais uma vez, podemos citar Davi no Salmo 51. Seu comportamento foi de profundo desespero, pois sabia que havia entristecido o coração de Deus. Os que choram são justamente aqueles que buscam novamente o amor do Senhor e não se satisfazem com consolações humanas. Seu contentamento só será pleno quando sentirem o perdão de Deus mais uma vez.
b). Os que choram pela afronta dos homens
Esses são os que sofrem por serem questionados e perseguidos por causa de sua fé. São aqueles que ouvem: “Onde está o teu Deus? Teus pecados foram realmente perdoados?” O mundo os persegue por andarem na contramão de seus valores e princípios.
Essa realidade é visível também em nossos dias: princípios cristãos como obediência, fé, respeito aos mais velhos e valorização da família são vistos como antiquados. Pessoas que vivem por tais valores são, simbolicamente, “levadas ao Coliseu”, para serem “devoradas pelas feras deste tempo” — a zombaria, a rejeição e a intolerância.
c). Os que choram pela iniquidade alheia
São aqueles que se entristecem ao ver o pecado dominar o mundo e sabem qual será o destino do ímpio. Por isso, choram e intercedem pelos perdidos. Esse choro é também um clamor, uma súplica diante de Deus pelo fim da iniquidade. Eles não se conformam apenas em se sentirem salvos, mas desejam ver a salvação alcançar outros corações.
Alguns interpretam o “choro” mencionado neste versículo apenas como a tristeza decorrente da perseguição aos cristãos genuínos. Contudo, para Wesley, esse choro se estende a toda tristeza que nasce do afastamento de Deus, do amor pelos pecadores e, sim, das perseguições sofridas por amor ao Evangelho.
A expressão “bem-aventurados” também é questionada por alguns, que afirmam não significar “felizes” — considerando-a contraditória: “Felizes são os que choram, porque serão consolados.” Mas, na verdade, não há contradição.
A mensagem de Jesus declara que são felizes os que choram hoje, porque serão consolados amanhã. Ou seja, há alegria e esperança mesmo na tristeza, pois os que choram por amor a Deus sabem que serão recompensados e consolados pelo próprio Senhor.
4. Bem aventurados os mansos, pois eles herdarão a Terra (v. 5)
Agora, Jesus nos fala sobre os mansos. Mas o que é, de fato, a mansidão?
Antes de tudo, é importante notar que a Bíblia a apresenta como um dos frutos do Espírito (Gl 5:22), o que demonstra sua relevância além deste texto.
Segundo John Wesley, ser manso não significa ser uma pessoa passiva ou indiferente diante das situações da vida. O manso não é alguém inerte, mas alguém comum, sujeito às mesmas circunstâncias que todos — inclusive à ira. Contudo, a mansidão não é ausência de emoção, mas o autocontrole sobre as emoções, especialmente nas situações que envolvem outras pessoas.
Wesley define a mansidão em três dimensões (p. 28, §4):
a) Em relação a Deus, é chamada de resignação — a calma que aceita a vontade divina, mesmo quando ela é dolorosa. Wesley cita o exemplo: “Ele é o Senhor; faça o que bem parecer aos seus olhos” (1 Sm 3:18).
b) Em relação a nós mesmos, manifesta-se como paciência ou contentamento.
c) Em relação aos outros, expressa-se em brandura diante do bem e gentileza diante do mal.
“É evidente que esse temperamento divino não deve apenas permanecer, mas aumentar em nós dia a dia. As ocasiões de exercitá-lo — e, portanto, de fortalecê-lo — nunca faltarão enquanto estivermos na Terra. ‘Precisamos de paciência, para que, depois de termos feito e sofrido a vontade de Deus, possamos receber a promessa.’ Precisamos de resignação, para que possamos, em todas as circunstâncias, dizer: ‘Não seja como eu quero, mas como tu queres’ (Mt 26:39). E precisamos de gentileza para com todos os homens, especialmente com os maus e ingratos; do contrário, seremos vencidos pelo mal, em vez de vencermos o mal com o bem.”
(Sermão do Monte — John Wesley, p. 29, §6)
Wesley também lembra que, mais adiante, Jesus advertirá: “Todo aquele que se encolerizar contra seu irmão será réu...” (Mt 5:21-22). Isso nos mostra que, para sermos mansos, precisamos de outro fruto do Espírito: o domínio próprio. A raiva contra o próximo é algo tão grave diante de Deus que Jesus chega a dizer que ela pode levar à condenação eterna. Ele cita que quem disser a seu irmão “Raca” (ou seja, tolo, vão) será réu do sinédrio; e quem o chamar de “louco”, réu do inferno — a condenação máxima. A mansidão, portanto, não elimina a ira, mas impede que ela se transforme em destruição.
Em uma nota pessoal, lembro-me da expressão popular: “Gentileza gera gentileza”, do profeta urbano José Datrino. Embora a frase não tenha origem bíblica, é inegável que expressa um princípio verdadeiro. Uma pessoa calma e gentil tem mais eficiência ao lidar com situações tensas. Sua serenidade a faz pensar melhor e ajuda outros a se acalmarem — enquanto a agressividade apenas multiplica a tensão e os prejuízos.
Jesus estava ensinando sobre as atitudes valorizadas no Reino dos Céus. Quando Ele diz: “Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a Terra”, refere-se à humildade e serenidade como forças espirituais — não sinais de fraqueza, mas de sabedoria e domínio.
A mensagem central é que aqueles que mantêm um coração humilde, sereno e pacífico são bem-aventurados — e herdarão não apenas a Terra, mas o repouso e a plenitude do Reino dos Céus.
Atualizado em 31 de Outubro de 2025
por Rogério Filho
