O animal terrível (Daniel 7)
Em Daniel 2:40-43, a quarta fase da profecia é simbolizada pelas pernas de ferro, que culminam nos pés compostos de ferro e barro, incluindo também os dez dedos. Em paralelo, Daniel 7:7-8 apresenta essa mesma etapa por meio da visão de um animal terrível e espantoso, cuja parte final é marcada por dez chifres, com destaque para um décimo primeiro que surge, arranca três dos anteriores e se mostra superior aos demais. No sonho de Nabucodonosor, o ferro é o metal correspondente ao quarto reino, pois, como o próprio texto afirma, “o ferro esmiúça tudo”. Os metais anteriores — ouro, prata e bronze — são mais maleáveis, o que indica implicitamente que este último reino será o mais forte e implacável de todos. No entanto, sua decadência ocorrerá de forma distinta. Enquanto os três primeiros reinos foram substituídos por sucessores humanos, o quarto será destruído pelo próprio Deus.
Essa destruição é representada de forma clara em ambas as visões: no sonho de Nabucodonosor, uma pedra lançada sem auxílio de mãos humanas atinge os pés da estátua, reduzindo-a a pó. Já na visão de Daniel, o quarto animal é julgado e destruído pelo Ancião de Dias. Ambos os símbolos apontam para Cristo, cuja segunda vinda porá um fim definitivo aos reinos humanos e restaurará o governo divino.
O quarto animal
"Em minha visão à noite, vi ainda um quarto animal, aterrorizante, assustador e muito poderoso. Tinha grandes dentes de ferro, com os quais despedaçava e devorava suas vítimas e pisoteava tudo o que sobrava. Era diferente de todos os animais anteriores e tinha dez chifres." (Daniel 7:7)
A ascensão de Roma
A Terceira Guerra Macedônica (171–168 a.C.) foi travada contra Perseu da Macedônia, filho de Filipe V. A batalha decisiva ocorreu em 168 a.C., na Batalha de Pidna, quando o exército romano, liderado por Lúcio Emílio Paulo, derrotou Perseu de forma esmagadora. Esta vitória marcou o fim do reino da Macedônia como uma entidade independente. A região foi dividida em quatro repúblicas clientes sob supervisão romana, evidenciando a crescente influência de Roma sobre os antigos territórios helenísticos.
Contudo, embora a vitória sobre a Macedônia tenha sido um marco importante, a consolidação definitiva da supremacia romana só viria algumas décadas depois, com a destruição de Corinto em 146 a.C. Nesta ocasião, Roma não apenas dominou a Grécia politicamente, mas também simbolicamente, eliminando qualquer resquício de resistência helenística. Esse episódio selou de forma clara o início da quarta fase do sonho e da visão — o surgimento do império representado pelo animal terrível e espantoso.
"Depois disto eu continuei olhando nas visões da noite, e eis aqui o quarto animal, terrível e espantoso, e muito forte, o qual tinha dentes grandes de ferro; ele devorava e fazia em pedaços, e pisava aos pés o que sobejava; era diferente de todos os animais que apareceram antes dele, e tinha dez chifres. Estando eu a considerar os chifres, eis que, entre eles subiu outro chifre pequeno, diante do qual três dos primeiros chifres foram arrancados; e eis que neste chifre havia olhos, como os de homem, e uma boca que falava grandes coisas." Daniel 7:7-8
O quarto animal é diferente de todos os outros, e Daniel nunca havia visto nada igual. Isso porque todos os demais eram semelhantes a criaturas conhecidas por ele — como o leão, o urso e o leopardo. Suas diferenças denotavam os poderes de cada império, como asas de águia ou quatro cabeças. Já o quarto animal era indescritível, uma figura sem paralelo no mundo natural, o que chamou a atenção de Daniel e o levou a perguntar ao anjo sobre ele.
O quarto animal também representava um reino, mas com uma natureza distinta e consequências igualmente singulares. Roma venceu a Macedônia em 168 a.C.; pouco mais de 100 anos depois, Judá estava sob domínio romano desde 63 a.C., quando o general Pompeu, um dos líderes da República, capturou Jerusalém. No entanto, as tensões entre judeus e romanos cresceram ao longo dos anos, motivadas por fatores religiosos, econômicos e políticos.
Isso culminou em sucessivas guerras, levando ao início da segunda diáspora em 70 d.C., quando Tito iniciou o cerco de Jerusalém na primavera daquele ano. Em agosto, as legiões romanas romperam as defesas da cidade e a invadiram. Houve uma feroz batalha, mas os romanos dominaram os defensores.
A destruição do Segundo Templo, em 70 d.C., foi um dos eventos mais significativos e dolorosos para o povo judeu. Representou um golpe devastador e intensificou a diáspora, que já existia, mas se ampliou e perdurou por séculos.
Apenas no século XX, com o reconhecimento da fundação do Estado de Israel pela ONU, muitos descendentes de judeus puderam retornar à terra ancestral. O impacto desse evento histórico reflete a força implacável do Império Romano, como profetizado em Daniel 9:26: "E o povo do príncipe que há de vir destruirá a cidade e o santuário" — sendo o príncipe uma referência a Tito, e o povo, o exército romano que cumpriu essa profecia.
Por que Roma?
Quais bases bíblicas e históricas sustentam a identificação de Roma como o quarto reino da profecia? Enquanto os reinos anteriores são mencionados explicitamente nas visões, Roma pode gerar dúvida, já que seu nome não aparece de forma direta. No historicismo, os acontecimentos históricos são examinados à luz das profecias, a fim de identificar eventos que correspondam aos símbolos e visões descritos nas Escrituras. Com isso em mente, avancemos para a história de Roma e descubramos por que ela é reconhecida como a quarta fase da profecia.
1. Continuidade histórica linear
O historicismo entende as profecias de Daniel como uma linha do tempo progressiva, em que cada reino sucede o anterior de forma natural e contínua. Assim:
Babilônia – cabeça de ouro / leão com asas
"Tu, ó rei, és rei de reis; a quem o Deus do céu tem dado o reino, o poder, a força, e a glória… tu és a cabeça de ouro." – Daniel 2:37-38
Medo-Persa – peito e braços de prata / urso com três costelas
"Aquele carneiro que viste com dois chifres são os reis da Média e da Pérsia." – Daniel 8:20. O caneiro de Daniel 8 é a mesma figura do urso de Daniel 7.
Grécia – ventre e coxas de bronze / leopardo alado com quatro cabeças
"Mas o bode peludo é o rei da Grécia; e o grande chifre que tinha entre os olhos é o primeiro rei." – Daniel 8:21. O bode de Daniel 8 é a mesma figura do leopardo de quatro cabeças de Daniel 7.
Roma – pernas de ferro / animal terrível com dentes e garras de metal
Esse último é que precisamos compreender à luz da história alinhadas a cada detalhe profetizado. A sucessão desses impérios é confirmada tanto pela profecia como pela própria história. Com a queda do Império grego, o Império Romano se tornou a potência dominante no cenário mundial, encaixando-se perfeitamente como a quarta fase da profecia, representada pelas pernas de ferro e pelo animal terrível e espantoso de Daniel 7.
2. Características do Império Romano nas profecias
A descrição da quarta fase nas duas visões tem características que se alinham diretamente com o que sabemos de Roma:
Ferro (Daniel 2:40): O ferro simboliza força e dureza, exatamente como o poder militar romano. Roma era conhecida por sua rigidez militar, disciplina e capacidade de esmagar qualquer oposição, "esmiuçando tudo" como diz o texto.
Animal terrível e espantoso (Daniel 7:7): Diferente dos outros animais — que tinham formas reconhecíveis como leão, urso e leopardo — o quarto animal é indescritível, representando o caráter único e brutal do Império Romano. A expressão "terrível, espantoso e muito forte" reflete tanto a crueldade com que Roma tratava seus inimigos quanto à extensão e eficácia de seu domínio militar e administrativo. No entanto, mais do que poder militar, a profecia aponta para uma transformação profunda no modelo de dominação.
Após a queda do Império Romano do Ocidente, em 476 d.C., e especialmente a partir de 538 d.C., inicia-se uma nova forma de poder: uma autoridade religiosa que se eleva sobre os reis da terra, exercendo influência espiritual e política. Esse sistema, diferente de todos os anteriores, não apenas buscaria domínio externo, mas atuaria sobre a consciência humana, alterando leis divinas e introduzindo ensinos distorcidos.
Esse novo poder, fundamentado na união entre religião e política, estenderia sua influência por séculos — não apenas controlando territórios, mas também definindo doutrinas, perseguindo dissidentes e modelando a fé cristã conforme sua conveniência. Assim, a quarta fase da profecia revela-se como a mais duradoura e complexa, atravessando os séculos até os dias atuais.
3. Os dez dedos e os dez chifres: A fragmentação do Império Romano
Tanto os dez dedos nos pés da estátua (Daniel 2:41-43) quanto os dez chifres do animal (Daniel 7:7) representam a divisão do Império Romano. Após o auge do poder romano, o império começou a se dividir e fragmentar, culminando na sua queda em 476 d.C. O Império Romano do Ocidente foi então dominado por várias tribos bárbaras, que deram origem aos reinos europeus posteriores. Entre essas tribos estavam os visigodos, ostrogodos, francos, vândalos, lombardos, suevos, burgúndios, alamanos, anglos-saxões e hérulos. Esta fragmentação é frequentemente associada, no contexto das profecias bíblicas e da interpretação historicista, à divisão do quarto reino em dez partes, conforme descrito no livro de Daniel. No historicismo, essa fragmentação é fundamental, pois o império não foi destruído de uma só vez, mas enfraqueceu internamente, como o ferro misturado com barro que não se mistura (Daniel 2:43).
O chifre pequeno, que surge entre os dez chifres da profecia, representa um poder que emerge da fragmentação do poder romano, mas consegue se impor sobre os reinos bárbaros que contribuíram para a queda do Império Romano Ocidental. Esse poder passa a exercer influência política e espiritual sobre esses reinos, conduzindo-os indiretamente. Para que se estabelecesse completamente, três dos primeiros reinos bárbaros (hérulos, vândalos e ostrogodos) que dominaram partes do Império Romano foram derrubados pelo "chifre", exatamente como a profecia prediz sobre o chifre pequeno.
Continua...
Este fragmento é parte da obra "Sonhos e Realidades - A História nos Olhos de Daniel" de Rogério Filho. Este texto é só uma amostra do conteúdo completo. Para adquirir o e-book, clique aqui

Nenhum comentário:
Postar um comentário