Modernidade Líquida e o Cristianismo Relativo



²¹ Examinai tudo. Retende o bem. ²² Abstende-vos de toda a aparência do mal. ²³ E o mesmo Deus de paz vos santifique em tudo; e todo o vosso espírito, e alma, e corpo, sejam plenamente conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo.
1 Tessalonicenses 5:21-23

Este artigo foi escrito baseado na observação de comportamentos e conceitos da nova sociedade e no conceito trazido do filósofo Zygmunt Bauman. Os termos "Família líquida", "Personalidade líquida" e "Cristianismo líquido" foram criados como maneira didática para exemplificar as conclusões abordadas neste estudo.


Introdução

A modernidade líquida, conceito desenvolvido pelo sociólogo Zygmunt Bauman (2000), caracteriza uma sociedade em que instituições, relacionamentos e identidades se tornam instáveis e transitórias. Nesse contexto, valores fundamentais — como amor, ética, compromisso e fé — correm risco de diluição, sendo substituídos por conveniência e satisfação imediata. Este artigo analisa os efeitos dessa liquidez sobre a família, a personalidade e a prática cristã.


Instabilidade das Relações Familiares

A modernidade líquida repercute significativamente nas relações familiares, manifestando-se na fragilidade dos vínculos conjugais. Observa-se que a priorização do prazer e da conveniência pessoal, em detrimento do compromisso e do cuidado mútuo, contribui para a instabilidade das uniões contemporâneas.

Dados das Estatísticas do Registro Civil do IBGE (2024) indicam que cerca de 428,3 mil divórcios foram registrados no Brasil, com aproximadamente 47,8% ocorrendo antes dos dez anos de casamento (IBGE, 2024). Em perspectiva comparativa, a OCDE mostra que a taxa de divórcios varia de 0,6 a 3,6 por 1.000 habitantes entre os países membros (ODCE, 2024).

Uniões pautadas em valores sólidos — cuidado mútuo, respeito e compromisso ético — demonstram maior resiliência frente às pressões externas, refletindo princípios duradouros e o conceito bíblico de amor ágape (Efésios 5:25). Dessa forma, a estabilidade familiar depende de uma base ética e emocional consistente, capaz de sustentar a relação em meio às transformações da sociedade contemporânea.


Mutabilidade da Personalidade na Modernidade Líquida

A liquidez social também molda a identidade e a personalidade, tornando indivíduos suscetíveis à influência do meio social sem reflexão crítica. Bauman (2000) aponta que a fragmentação da experiência individual resulta em identidade contingente, vulnerável a pressões externas e modismos.

A difusão de informações superficiais em mídias digitais amplifica este efeito, levando à adoção acrítica de ideias alheias e à conformidade social sem análise aprofundada. Filósofos clássicos enfatizam a importância do questionamento: Sócrates defendia o exame de si mesmo; Descartes, a dúvida metódica; Kant, a autonomia racional; e Hannah Arendt alertava sobre os riscos da adesão passiva a ideologias. Assim, a construção de uma personalidade sólida requer pensamento crítico, autoconhecimento e consistência ética, essenciais para resistir às tendências líquidas da contemporaneidade.



Cristianismo Líquido e Superficialidade Religiosa

A instabilidade característica da modernidade líquida também afeta a esfera espiritual. O cristianismo líquido descreve uma prática religiosa marcada por superficialidade, conformismo e adesão passiva a líderes ou tradições, sem reflexão teológica ou estudo profundo das Escrituras.

O Novo Testamento advertia historicamente contra a aceitação acrítica de ensinamentos que distorcessem a fé (Apocalipse 2:12-15). De forma análoga, a falta de conhecimento bíblico e histórico contribui atualmente para a adesão passiva a doutrinas, reduzindo a prática religiosa à rotina ritual sem compreensão substancial do Evangelho.

Kierkegaard (1849) ressalta que a fé exige compromisso pessoal, coragem diante da dúvida e responsabilidade individual, condições incompatíveis com uma adesão superficial. A reflexão consciente e o estudo sistemático das Escrituras constituem antídotos à liquidez espiritual, permitindo que o indivíduo desenvolva convicções sólidas e uma prática de fé fundamentada (Oséias 4:6; Mateus 7:15; Mateus 24:24).


Considerações Finais

A liquidez proporciona liberdade e flexibilidade, mas também pode gerar fragilidade nas relações, na personalidade e na espiritualidade. O exame crítico e fundamentado dos conceitos sociais e espirituais, aliado à reflexão ética e ao estudo das Escrituras, constitui a base para desenvolvimento pessoal e estabilidade existencial.

Princípios duradouros, aplicados de forma consciente, fortalecem a vida humana em todas as dimensões — ética, emocional e espiritual — e oferecem um caminho de profundidade e sentido em meio às transformações líquidas da sociedade contemporânea.

Por Rogério Filho
10 de Outubro de 2025



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Bíblia Sagrada.
Tradução de João Ferreira de Almeida.
São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993.

BAUMAN, Zygmunt.
Modernidade líquida.
Tradução de Plínio Dentzien.
Rio de Janeiro: Zahar, 2001.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE).
Estatísticas do Registro Civil 2024.
Rio de Janeiro: IBGE, 2024.
Disponível em: https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/populacao/9126-estatisticas-do-registro-civil.html
Acesso em: 23 dez. 2025.

ORGANISATION FOR ECONOMIC CO-OPERATION AND DEVELOPMENT (OECD).
Society at a Glance 2024: Marriage and divorce.
Paris: OECD Publishing, 2024.
Disponível em: https://www.oecd.org/en/publications/society-at-a-glance-2024_918d8db3-en.html
Acesso em: 23 dez. 2025.

KIERKEGAARD, Søren.
A doença para a morte.
Tradução de Álvaro Valls.
Petrópolis: Vozes, 2010.

ARENDT, Hannah.
Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal.
São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

DESCARTES, René.
Discurso do método.
São Paulo: Martins Fontes, 2001.

KANT, Immanuel.
Resposta à pergunta: o que é o esclarecimento?
São Paulo: Martins Fontes, 2005.

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