Nefilins: Gigantes, Anjos ou Homens Opressores?

"¹ E aconteceu que, como os homens começaram a multiplicar-se sobre a face da terra, e lhes nasceram filhas, ² Viram os filhos de Deus que as filhas dos homens eram formosas; e tomaram para si mulheres de todas as que escolheram. ³ Então disse o Senhor: Não contenderá o meu Espírito para sempre com o homem; porque ele também é carne; porém os seus dias serão cento e vinte anos. ⁴ Havia naqueles dias gigantes na terra; e também depois, quando os filhos de Deus entraram às filhas dos homens e delas geraram filhos; estes eram os valentes que houve na antiguidade, os homens de fama".
Gênesis 6:1-4


Introdução

Uma análise crítica de Gênesis 6 à luz do hebraico, da literatura mosaica e do contexto histórico-cultural

A narrativa de Gênesis 6 e os Nefilins é uma das mais enigmáticas da Bíblia. Ao longo dos séculos, estudiosos e teólogos ofereceram diferentes interpretações sobre quem seriam os “filhos de Elohim” e os Nefilins. Este artigo apresenta três interpretações principais, analisando cada uma criticamente, com base no hebraico, no contexto histórico-cultural e no estilo literário de Moisés.

As conclusões apresentadas aqui dialogam com grandes nomes do contexto rabínico e vários teólogos modernos.

Antes de começarmos, vou apresentar as interpretações ensinadas. São elas:


1 - Interpretação dos Anjos Caídos

– Filhos de Deus = anjos (ou vigilantes)

– Filhas dos homens = mulheres humanas

– Resultado = gigantes / seres híbridos (Nefilins)

É a visão do Livro de Enoque, dos judeus do Segundo Templo, da Septuaginta, dos Pais da Igreja (Justino, Irineu, Tertuliano), e também da maioria dos rabinos antigos.


2 - Interpretação dos Descendentes de Sete

– Filhos de Deus = linhagem piedosa de Sete

– Filhas dos homens = linhagem de Caim

– Resultado = homens violentos e poderosos

Essa visão ficou famosa principalmente com Agostinho.


3 - Interpretação dos reis/tiranos do mundo antigo

– Filhos de Deus = reis que se auto proclamavam semi-divinos

- Filhas dos homens = mulheres plebéias

– Nefilins = guerreiros famosos

Essa visão é mais moderna (acadêmica), ligada à crítica textual comparativa.


Quem eram os filhos de Deus (filhos de Elohim)?


1. Anjos caídos

Embora seja uma das interpretações mais antigas, ela apresenta dificuldades significativas.

Um dos critérios para análise foi investigar, com base nas Escrituras, a natureza dos anjos. Jesus afirma que os anjos “não se casam” no estado celestial (Mt 22:30).

Alguns defensores desta interpretação afirmam que os anjos “se tornaram humanos”. No entanto, biblicamente, não há registros de transformação plena angelical para biológica. O fato de poderem tomar forma humana temporariamente não implica em uma transformação física.

Anjos não são seres biológicos; portanto, não possuem características que permitam o processo natural de reprodução. Embora o texto não descreva explicitamente a relação sexual, ele afirma que as mulheres “lhes deram filhos”, o que implica um ato reprodutivo.

A expressão “relações sexuais” aparece na versão NVI, mas em traduções mais literais ou fiéis ao hebraico (como a Almeida Revista e Corrigida ou a Septuaginta), o verso é apresentado desta forma:

Havia naqueles dias os Nefilins na terra; também depois, quando os filhos de Elohim entraram às filhas dos homens, e delas geraram filhos…

O verbo usado, “yildu” (וַיִּוְלְדוּ), significa literalmente “geraram filhos”, sem detalhar o meio pelo qual ocorreu. Considerando que a reprodução humana ocorre por contato sexual, a expressão está implícita, mas não declarada.

Dessa forma, a hipótese de anjos caídos gerando descendência humana carece de fundamento biológico, teológico e textual, tornando a interpretação insustentável.


2. Descendentes de Sete como "filhos de Deus".

Outra interpretação propõe que os “filhos de Deus” seriam a linhagem piedosa de Sete (filho de Adão, no lugar de Abel), enquanto as “filhas dos homens” seriam descendentes de Caim. Nesse cenário, os Nefilins seriam apenas homens violentos e poderosos, sem natureza sobrenatural.

A maior dificuldade desta interpretação está na escolha das palavras. Se Moisés quisesse identificar a linhagem de Sete, teria usado expressões consistentes com seu estilo literário. A expressão “filhos de Deus” (bene elohim) nunca é usada no Antigo Testamento para se referir à descendência de Sete; ela aparece associada a seres celestiais ou figuras de autoridade.

Portanto, a identificação dos “filhos de Deus” com a linhagem de Sete parece forçada e pouco natural ao texto, tornando a interpretação menos convincente.


3. Homens poderosos, tiranos

Um outro texto bíblico pode nos dar um forte indício sobre a expressão "filhos de Deus". O Salmo 82:1-7, nos dá uma pista lógica para entender a expressão hebraica. Nesta interpretação, os “filhos de Elohim” são homens poderosos, autoridades ou juízes. Deus é descrito julgando essas figuras:

Deus se levantou na assembleia divina; no meio dos deuses [elohim] julga. Eu disse: Vocês são deuses [elohim], todos vocês são filhos do Altíssimo. Mas vocês morrerão como homens comuns, cairão como qualquer príncipe.

Ou seja, trata-se de homens politicamente influentes — reis, líderes tribais ou juízes — que exerciam autoridade sobre o povo e, frequentemente, abusavam desse poder.

Esses governantes se dirigiram às “filhas dos homens”, mulheres comuns, sem prestígio social. O texto descreve opressão social e moral, e não romance.

Esta interpretação encontra um sólido fundamento dentro do próprio cânone hebraico, especificamente no Salmo 82. Neste texto, temos uma cena celestial na qual Deus preside uma assembleia e dirige-Se a um grupo chamado de elohim (literalmente "deuses" ou "poderosos"), a quem Ele mesmo intitula benei Elyon — "filhos do Altíssimo" (Sl 82:6).

No entanto, o veredito final sobre esses elohim é revelador: "Mas vocês morrerão como homens comuns, cairão como qualquer príncipe" (Sl 82:7). O salmo, portanto, descreve autoridades humanas — juízes ou reis — que, por exercerem um cargo de representação divina na terra, eram simbolicamente chamados de "filhos do Altíssimo". Sua falha em praticar a justiça, no entanto, os reduz à condição de meros mortais sujeitos ao julgamento.

Esta é a ponte lexical crucial para entendermos Gênesis 6. O termo benei ha'elohim ("filhos de Deus") pode perfeitamente seguir a mesma lógica, referindo-se a homens poderosos da antiguidade — reis, chefes tribais ou juízes — que, corrompidos por seu poder, agiram como tiranos. Eles se consideravam divinos, mas suas ações os tornaram moralmente caídos (Nefilim).

O texto fornece um detalhe crucial que corrobora esta leitura: "os filhos de Deus tomaram para si mulheres de todas as que escolheram" (Gn 6:2). Esta não é a descrição de um cortejo ou aliança matrimonial, mas sim a narrativa de uma apropriação violenta.

A capacidade de simplesmente tomar qualquer mulher que lhes agradasse revela um contexto de poder absoluto e opressão social. Esses governantes, que se viam como elohim, tratavam a população — representada aqui pelas "filhas dos homens" — como um recurso à sua disposição. Elas não eram parceiras, eram espólios.

Este abuso de poder é a própria essência da corrupção que levou ao Juízo Divino. Não se tratava apenas de uma união proibida entre esferas diferentes, mas de um colapso total da justiça e da ordem social, onde os poderosos devoravam os fracos. O pecado, portanto, não era de biologia, mas de moralidade e poder desenfreado.


Os Nefilins - O resultado degradação moral

Quanto aos Nefilins, algumas traduções os apresentam como “gigantes”, mas o termo é ambíguo. Pode facilmente ser interpretado como "pessoa de grande poder", ou "forte". No texto, eles são mencionados como valentes.

A raiz hebraica n-f-l (נפל), lida como nê-fal, significa “cair”, e não faz nenhuma menção a homens de alta estatura, sugerindo que são homens:

  • moralmente caídos
  • desviados
  • corruptos
  • ou “aqueles que derrubam”, isto é, opressores

Diante da crescente violência e corrupção, Deus decreta o limite de 120 anos e, posteriormente, o juízo do dilúvio. Esta interpretação se encaixa no contexto histórico, textual e literário, oferecendo uma explicação coerente para os filhos de Elohim e os Nefilins como figuras humanas poderosas e moralmente decadentes.


Conclusão

Embora a interpretação dos anjos caídos e gigantes híbridos seja a mais cativante para nossas histórias -–, a realidade textual nos aponta para uma tragédia profundamente humana: a corrupção do poder e a violência sistêmica que levam ao colapso da civilização. E isso, caro leitor, é um tema tão ou mais aterrador do que qualquer mito.

Resumindo: Os "filhos de Deus", não são anjos caídos, são homens que detêm algum tipo de força social, como o exemplo do salmo 82, poderiam ser juízes ou governantes. As "filhas dos homens" são mulheres de uma rede social mais baixa, ou plebéias. Elas eram literalmente tomadas para serem objetos desses homens.

Os chamados Nefilins, frequentemente traduzidos como “gigantes”, representam indivíduos de caráter ético e moral corrompido, e não seres sobrenaturais ou híbridos. Essa interpretação se alinha com a continuidade do relato bíblico do mesmo capítulo, que afirma que Deus se arrependeu de ter criado o homem devido à sua perversidade (versos 5-6), reforçando que o problema era a decadência moral e social da humanidade, e não sua ascendência física.

Espero que esse artigo lhe ajude a compreender um pouco mais dos enigmas bíblicos que chamam a atenção de muitos.

Por Rogério Filho
27 de novembro de 2025



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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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